Sobre a Morte (em Tempo de Eutanásia)



Temos, na nossa cultura ocidental, uma enorme dificuldade em lidar com a morte. Aceitar a morte.
Passamos uma vida inteira a fugir dela.
Encaramos a morte como ‘o que acontece quando algo corre mal’. Não com naturalidade, como parte da vida.
Pior, não encaramos a morte como inevitável.
Quando alguém morre, perguntamos - “O que aconteceu? Não havia médicos por perto? Não chegou a tempo ao hospital? A ambulância tardou? Houve negligência médica? Que idade tinha?”
Como se para alguém morrer, alguma coisa tivesse que correr mal. Como se morrer não fosse tão natural como nascer.
Queremos controlar tudo, desde o nascimento até a morte.
Queremos prevenir a morte.
Evitamos falar com as nossas crianças sobre a morte. Não as levamos aos cemitérios. Muito menos aos funerais.
E neste desejo de controlar tudo, dizemos às crianças que quando morremos vamos para o céu. E olhamos uns para os outros com um sorriso condescendente, como se estivéssemos a acabar de dizer uma mentira.
Quando, de facto, não fazemos a menor ideia do que acontece quando morremos.
Queremos controlar tudo. Não controlamos nada.