Cantiga do Canário

Tenho um canário

numa gaiola

canta tão bem

que até consola

minha criada

chamada Aurora

pôs-se a brincar

deitou-me o canário fora


(cantiga popular que a avó Aldina cantava)

Emília das Rigolices

No início dos anos sessenta, vivia na vila da Sertã uma senhora de meia idade a quem chamavam Emília das Rigolices.
Aos Sábados, a Emília era frequentemente vista na taberna.
Entrava e pedia dois copos de vinho, um para ela, outro para a comadre.
Emborcava o dela e, de seguida, ia até à porta.
Olhava para a esquerda. Olhava para a direita.
Dizia - Não vens? Olha, bebo eu o teu! - e regressando para dentro emborcava o segundo copo também.

Define-te!

Nasces e pedem-te que te definas. Deves dizer quem és! Atribuem-te um nome, um número, um género e uma data de nascimento.

A partir desse momento, não podes fugir. Estás a acabar de nascer e a margem de manobra já se começou a reduzir.

Rapaz ou rapariga? Não há outra opção. Não podes responder que não sabes, que ainda não pensaste nisso.

E essa categorização vai influenciar tudo o que vem para a frente.

O que é que se oferece a uma menina que faz seis anos? Os teus tios não vão perguntar com o que é que a Joana gosta de brincar. Eles vão perguntar com o que é que uma menina que nasceu em 2012 gosta de brincar.

E um dia tu acordas e não sabes com o que é que gostas de brincar. Não sabes se gostas de bonecas porque gostas de bonecas, porque é a tua cena. Ou se, pelo contrário, pensas que gostas de bonecas porque nunca brincaste com outra coisa qualquer.

As meninas hoje em dia são assim. Os meninos no meu tempo eram assado. É impossível fugir ao estereótipo quando vives num mundo de categorias.

Tens que encaixar. Exigem-te isso. Que te encaixes num categoria qualquer.

Não aceitas? Então, encaixas na categoria dos desalinhados.