Acordar sem pressas, tomar um pequeno almoço reforçado e
sair. Ninguém nos ia roubar a manhã nas dunas. Passámos por Arfoud para uma ida
rápida à oficina. Nestas viagens há sempre o que fazer na oficina. Um chá de
menta, uma passagem pela boutique para ver os tapetes, atestar o carro. Estamos
prontos para arrancar.
Seguimos em direcção a Merzouga e entrámos no Erg junto ao
Tombouctou, o famoso hotel em que a Elisabete Jacinto tantas vezes fica
hospedada. Tal como ontem, enquanto tiramos ar, aproxima-se um grupo de
marroquinos que mete conversa e tenta vender frascos para a areia do deserto e
saboneteiras com fosseis. Pergunto se as dunas estavam melhores que ontem e
eles asseguram que sim. Hoje não havia vento e por isso as dunas estavam
perfeitas para o 4x4. Negoceio dois frasquinhos de areia por sessenta dirhams.
Um atrás do outro, os carros entram pelo Erg. O mais
experiente à frente, os outros seguem-no tentando que as rodas passem pelo
mesmo sítio. Há quem tenha medo das dunas; eu acho divertido! Nunca se sabe o
que está do outro lado. Tentamos encontrar o ponto exacto para tirar o pé sem
que a barriga do carro assente na crista da duna. Cruzamos os dedos sem saber
se, do outro lado, a duna continua plana ou cai a pique.
Gostava que tivéssemos ido até ao Oásis Ubira, mas a maioria
preferiu ir até Merzouga para almoçar. Escolhemos um restaurante com braseiro,
mas onde não havia carne. Um dos marroquinos aceitou ir connosco até ao talho.
Borrego e bifes de vaca. O restaurante forneceu o pão e as bebidas e ainda
aceitou que pousássemos em cima da mesa o que trazíamos connosco.
Conversar, distribuir os restos pelos gatos, brincar com as
crianças que por ali andavam. Por fim, concordámos que queríamos ver tapetes.
Ali perto há uma Associação Feminina; uma espécie de cooperativa que defende os
direitos das mulheres e crianças e se dedica à difusão da cultura berbere. Um
dos marroquinos aceitou ir connosco de carro à sua procura.
Um pouco afastada de Merzouga, numa casa que se confunde com
todas as outras da aldeia, é aí que fica a Association
Izourane, uma organização para o desenvolvimento da mulher e da
criança. Lá dentro, um pequeno museu explica as rotinas de um nómada berbere e
apresenta os símbolos que encontramos nos tapetes desta cultura do sul de
Marrocos, do deserto. O homem livre, a fertilidade, o poço, a hora entre o pôr
do sol e a noite, a magia, etc. As mulheres transpõem a sua história para os
seus tapetes, através de símbolos misteriosos.
Voltámos a Arfoud, desta vez para um novo hotel – o Palace
du Desert. Depois da confusão do Xaluca, sentir o aroma a rosas em todo o lado
e entrar pelo jardim, simples, despojado, magnífico, soube bem. Duas piscinas
escondem-se entre arbustos. O aroma das flores está sempre presente. Tudo convida
à meditação. Foi preciso o Xaluca não ter quarto para descobrirmos este
paraíso.
A noite pediu mais uma visita a Arfoud. Alguns carros
estavam na oficina, ainda. Queríamos fumar uma shisha mas, segundo nos
disseram, agora é proibido fumar shisha em Marrocos, pasme-se. Passeámos apenas
pelas ruas. Em Marrocos, as lojas ficam abertas até tarde. Cafés, bicicletas; aqui
a vida nocturna é natural. Há homens e mulheres nas ruas e tudo está em paz.
Tapetes é que só amanhã.

