Diário de Viagem - Ifrane a Midelt - Dia 2


Hoje acordámos em Ifrane. É aqui que alguns marroquinos passam as férias de Inverno, na neve. Mas hoje não havia neve.

Arrancámos por terra em direcção a Midelt. Dormiu-se bem e já havia música a tocar dentro do carro. Hoje não tinha sono. Gosto de conduzir sozinha pelos trilhos. Dá para pensar, em tudo. Dá para nos conhecermos a nós próprios. Faz falta nas rotinas da vida adulta um tempo para estar sozinho com os próprios pensamentos. Falar connosco.

Parámos na Floresta dos Cedros para a visita obrigatória aos macacos e ao Gouraud. O Gouraud é um cedro gigante, muito velho. Na verdade, o Gouraud está morto, mas a alma dele continua viva e toma conta de todo o parque. O Gouraud representa toda a floresta e todos os cedros da Floresta dos Cedros.

Uns metros adiante, a colónia de macacos ali estava. Ninguém sabe ao certo como apareceram. É o único sítio em Marrocos que tem macacos. Posam para a foto, sobem para os capots dos carros e aceitam comida à mão. Estão em casa.



O caminho seguiu por terra, passando pelas antigas minas de Aouli, por um trilho complicado em pleno Atlas. O Todo o Terreno é como a vida. É preciso escolher caminho, seguir o instinto. Foi isso que aconteceu durante o resto da manhã. Procurar caminhos que a chuva destruiu. Ultrapassar obstáculos que o Homem construiu.

Almoçámos no que resta das minas de chumbo de Aouli. Por todo o lado aparece gente, crianças sobretudo. Vai-se dando o que se trouxe para dar. Roupa, brinquedos, doces. Eu não dou doces às crianças. Sei que o acesso a médicos dentistas é difícil para estes miúdos e é uma parvoíce oferecer aquilo que não lhes faz falta e ainda por cima lhes faz mal. Os miúdos não gostam desta minha maneira de pensar e insistem: “Madame, bom-bom?”. Mas não há.



Midelt está já aqui ao lado e acerta-se um café antes de seguir para o Cirque de Jaffar. Assumi o compromisso de estar 30 dias sem café e tenho conseguido cumprir. Chá de menta para mim!
Midelt é uma cidade grande, que marca a linha cultural que separa o norte fértil do sul desértico. Uma senhora mais velha passa por mim e agarra-me na mão. Fala em árabe e eu não percebo nada. “Français?” – pergunta. “Portugal!” – respondo.



Já é tarde para visitar o Mosteiro de Nossa Senhora do Atlas. Decidimos ir fazer apenas a famosa pista do Cirque de Jaffar. O Cirque de Jaffar já foi considerado uma das pistas mais perigosas do mundo. Hoje o caminho levou obras e o perigo reduziu-se. Ainda temos a altitude em curvas de pedra solta que faz o carro atravessar-se. Mas a pista é mais larga.

Aqui e além aparecem casas da cor da terra. Casas camufladas, como são quase todas em Marrocos. São as crianças quem dá a cor ao país! Aparecem de todos os lados e quando menos estamos à espera. Não falamos árabe. Passamos pelas pessoas e os sorrisos são toda uma conversa. Elas sorriem e dizem que estão contentes por nos verem; porque verem-nos é abrir uma janela sobre um mundo tão diferente do seu. Sente-se a curiosidade no ar. Nós sorrimos e agradecemos a simpatia com que recebem estrangeiros tão diferentes de si. Agradecemos que estejam em paz connosco, num mundo que só fala de guerra.



E nisto chegámos às gargantas. Uma trialada por um caminho que não tínhamos a certeza de conseguir fazer até ao fim e onde dar a volta é missão impossível. Passámos todos.