Hoje acordámos em Ifrane. É aqui que alguns marroquinos
passam as férias de Inverno, na neve. Mas hoje não havia neve.
Arrancámos por terra em direcção a Midelt. Dormiu-se bem e
já havia música a tocar dentro do carro. Hoje não tinha sono. Gosto de conduzir
sozinha pelos trilhos. Dá para pensar, em tudo. Dá para nos conhecermos a nós
próprios. Faz falta nas rotinas da vida adulta um tempo para estar sozinho com
os próprios pensamentos. Falar connosco.
Parámos na Floresta dos Cedros para a visita obrigatória aos
macacos e ao Gouraud. O Gouraud é um cedro gigante, muito velho. Na verdade, o
Gouraud está morto, mas a alma dele continua viva e toma conta de todo o parque.
O Gouraud representa toda a floresta e todos os cedros da Floresta dos Cedros.
Uns metros adiante, a colónia de macacos ali estava. Ninguém
sabe ao certo como apareceram. É o único sítio em Marrocos que tem macacos.
Posam para a foto, sobem para os capots
dos carros e aceitam comida à mão. Estão em casa.
O caminho seguiu por terra, passando pelas antigas minas de
Aouli, por um trilho complicado em pleno Atlas. O Todo o Terreno é como a vida.
É preciso escolher caminho, seguir o instinto. Foi isso que aconteceu durante o
resto da manhã. Procurar caminhos que a chuva destruiu. Ultrapassar obstáculos
que o Homem construiu.
Almoçámos no que resta das minas de chumbo de Aouli. Por todo
o lado aparece gente, crianças sobretudo. Vai-se dando o que se trouxe para
dar. Roupa, brinquedos, doces. Eu não dou doces às crianças. Sei que o acesso a
médicos dentistas é difícil para estes miúdos e é uma parvoíce oferecer aquilo
que não lhes faz falta e ainda por cima lhes faz mal. Os miúdos não gostam
desta minha maneira de pensar e insistem: “Madame, bom-bom?”. Mas não há.
Midelt está já aqui ao lado e acerta-se um café antes de seguir
para o Cirque de Jaffar. Assumi o compromisso de estar 30 dias sem café e tenho
conseguido cumprir. Chá de menta para mim!
Midelt é uma cidade grande, que marca a linha cultural que
separa o norte fértil do sul desértico. Uma senhora mais velha passa por mim e
agarra-me na mão. Fala em árabe e eu não percebo nada. “Français?” – pergunta. “Portugal!”
– respondo.
Já é tarde para visitar o Mosteiro de Nossa Senhora do Atlas.
Decidimos ir fazer apenas a famosa pista do Cirque de Jaffar. O Cirque de
Jaffar já foi considerado uma das pistas mais perigosas do mundo. Hoje o
caminho levou obras e o perigo reduziu-se. Ainda temos a altitude em curvas de
pedra solta que faz o carro atravessar-se. Mas a pista é mais larga.
Aqui e além aparecem casas da cor da terra. Casas
camufladas, como são quase todas em Marrocos. São as crianças quem dá a cor ao
país! Aparecem de todos os lados e quando menos estamos à espera. Não falamos
árabe. Passamos pelas pessoas e os sorrisos são toda uma conversa. Elas sorriem
e dizem que estão contentes por nos verem; porque verem-nos é abrir uma janela
sobre um mundo tão diferente do seu. Sente-se a curiosidade no ar. Nós sorrimos
e agradecemos a simpatia com que recebem estrangeiros tão diferentes de si.
Agradecemos que estejam em paz connosco, num mundo que só fala de guerra.
E nisto chegámos às gargantas. Uma trialada por um caminho que não tínhamos a certeza de conseguir fazer até ao fim e onde dar a volta é missão impossível. Passámos todos.




