O dia começou com uma pista de alta montanha e uma das vistas mais extraordinárias de sempre em Marrocos. Cerca de 30 quilómetros que serviram de inspiração para o resto do dia. Como se o ar rarefeito dos quase 3.000 metros de altitude tornasse o dia mais leve. O caminho era estreito e com curvas que se inclinavam sobre o precípicio. Mas a vista aliviou toda a ansiedade.
No final, comprámos pão para o almoço e despedimo-nos de dois dos elementos do grupo, que foram até Marrakesh.
A pista que se seguiu, descia através do Atlas para uma aldeia e entrava rio dentro, atrevida. As aldeias desta zona assemelham-se ao Piódão, em versão marroquina. Aqui não se usa o xisto. As casas confundem-se com a envolvente, como que camufladas.
Ao contrário do que tem acontecido em Portugal, em que os arquitectos dão largas à imaginação e cada prédio tem uma cor, um estilo, uma tendência de uma determinada época; aqui em Marrocos a paisagem é uniforme. Os edifícios são bege, rosa, cor de barro, alaranjado. Cada aldeia tem uma mesquita com uma torre alta e esguia e a escola tem uma bandeira à entrada. Há um respeito pelo contexto que eu admiro. Mas não pensem que a cor não existe. Ela está presente nos lenços das mulheres, na roupa estendida e nos tapetes pendurados.
Choveu nas últimas semanas e o caudal do rio é superior ao habitual. Seguimos em fila indiana, corajosos. Um bando de miúdos juntou-se a nós para ajudar. Não têm medo de molhar as pernas. Correm à nossa frente e testam a profundidade das águas. Atravessam o leito do rio agarrados uns aos outros para não caírem. Retiram as pedras maiores e tentam orientar as manobras.
Pouco tinhamos andado quando aparece um marroquino junto da minha janela e pede-me para falar comigo. Pergunta se eu sou a chefe. Digo-lhe que não, que o chefe é o que vai à frente, no carro imediatamente a seguir ao meu. Pede-me que o chame, entre o irritado e o preocupado. Pergunto-lhe o que se passa e ele responde que temos que voltar para trás, que há outro caminho por Ouarzazate, que por ali não se passa, que é perigoso, que ele é o chefe daquela aldeia e não quer lá acidentes, que a chuva e o passar dos carros arruinou a pista. Aviso ao rádio e juntam-se os dois responsáveis do nosso grupo com o chefe da aldeia, em conferência de líderes.
Até agora não sei como o fizeram, mas convenceram-no a deixar-nos avançar. Desejou-nos boa viagem e deve ter ficado a aguardar que o chamassem para resolver alguma emergência. Mas não foi preciso.
Os miúdos acompanharam-nos trilho fora durante vários quilómetros. Acompanharam-nos até nós lhes pedirmos que voltassem para trás. Oferecemos quase tudo o que trazíamos - eles mereciam e tinham um longo caminho para fazer para trás. Um deles trazia um sapato diferente em cada pé. No pé esquerdo um sapato plástico azul que mais parecia desenhado para piscina. No pé direito uma bota muito velha e muito rota. Nós não trazemos sapatos e era o que ele mais queria e precisava. Enternecida (isto dá-me desde que fui mãe), ofereci-lhe os sapatos que trago nos pés, praticamente novos, comprados de propósito para esta viagem. Uma alpargatas normais, pretas, com uns detalhes cor de rosa muito discretos. Olhou e voltou a olhar e acabou por se rir e dizer que não.
Onde há água há árvores e onde há árvores há sombras. Piquenicámos o pouco que sobrou e prosseguimos viagem já eram quase quatro da tarde. O resto do caminho foi alcatrão, com passagem por uma cidade grande onde era dia de feira - Demnat.
Chegámos a Ouzoud ao final do dia. La Kasbah d'Ouzoud estava à espera para um final de dia sereno. Amanhã iremos às cascatas!
