O Machismo que se Mascara de Cortesia



Aborrece-me quando um homem não é educado. Aborrece pela falta de educação em si. Quando é educado, também aborrece.

Outro dia num grupo político de Facebook um indivíduo começava desta forma a sua mensagem: "Queridas amigas e ilustres amigos".

Achei de um machismo sem precedentes. Não tem nada que me considerar querida. Se quer considerar-me alguma coisa, que seja ilustre. Nunca querida. Mas os ilustres ali eram "Eles". Os senhores.

As senhoras, já se sabe, são umas fofas. Quando, numa discussão, têm uma opinião contrária, são tratadas com alguma condescendência.

Num restaurante, a lista dos vinhos é entregue ao cavalheiro e é a ele que cabe a prova. Será para proteger o sistema intestinal das senhoras ou simplesmente porque senhora que se preze não entenderá de bebidas alcoólicas. Nalguns locais mais civilizados (ou não) já se pergunta "quem prova?"

O machismo está muitas vezes disfarçado de cortesia. O cúmulo dessa cortesia residirá nas afirmações deste saudita. Para ele, as mulheres sauditas, que não podem conduzir automóveis, estão de facto a ser tratadas como rainhas. Afinal, viajam no banco de trás e sempre com motorista!

O que distingue um país de outro será o efeito legislativo da coisa. Por cá a cortesia não é lei, por lá é. Mas colocar o volante nas mãos do homem e enviar a senhora para o banco de trás não é assim tão diferente de dar o vinho a provar ao senhor (vinho esse que a senhora também vai beber).