O meu pai contava que no tempo dele todos os cães eram livres. Quando o homem chegou foi divertido. Os lugares para esconderijo eram mais e o homem era amigo.
Houve alguns cães, "velhos do Restelo", que desconfiaram e avisaram: "quando a esmola é grande, o cão desconfia. Não aceitem comida que desaprendem de caçar.". Mas ninguém poderia supor o que viria.
Pouco a pouco, alguns cães foram viver com os homens nas suas casas. Tinham comida, água e médico. O único contra era a impossibilidade de ter cachorros, a impossibilidade até de estar com cadelas. Como membros do clero, fizeram-nos celibatários que corriam atrás de pauzinhos.
Alguns houve que nunca se deixaram apanhar e preferiram uma vida mais curta e de risco, mas também de aventura e liberdade.
Tal como o resto, também isto não durou muito. O homem não aprecia ser contrariado e foi impondo as suas regras devagar, num território que foi por nós partilhado desde o inicio e voluntariamente.
Os cães passaram a ter que estar à responsabilidade de um dono humano, sob pena de viverem à margem, sujeitos a serem presos e condenados à morte sem julgamento. Revoltados, alguns retaliaram sem sucesso, apenas piorando as relações.
Cada vez foram mais os que se converteram a uma vida de escravidão. Como pedintes, andaram atrás dos homens que apanhavam sozinhos para que os adoptassem. Colocavam-se muitas vezes em sítios estratégicos, como restaurantes ou oficinas, e ganhavam a simpatia de quem lá trabalhava. Para além de comida garantida, tinham ainda a segurança de não serem levados.
O homem foi tomando posse do território até nada restar. Mesmo os jardins, feitos com o propósito de servirem os cães, foram um engano e mais um motivo de prisão. Agora, fazer as necessidades na terra (sim, na terra) é também um crime. Quando nos apanham eles dizem que nos salvaram e chegam mesmo a afirmar que nós preferimos viver presos; que nós precisamos de um dono. Se esse dono não chegar, a morte toma conta de nós. Aos que involuntariamente acabam por encontrar um dono, mesmo contra a sua vontade, nem a fuga é possível. Passeiam-nos como troféus, com cordas, e puxam-nos para onde desejam ir. A vontade do cão nunca é tida em conta.
Agora, só aos que apresentam determinadas características é permitido o acasalamento. Aos restantes, cortam-lhes os testículos em pequenos, para que não só sejam impedidos de procriar, como também vejam os seus instintos mais básicos reduzidos a nada; para que se tornem mansos e dóceis como um peluche a pilhas, comendo, bebendo e dormindo. As crias são vendidas em tenra idade e são negócio para os tais donos. Há até lojas onde se vendem os bebés dos cães a bom dinheiro e cordas bonitas para os passear. Cordas tão bonitas que quase nem se parecem com cordas.
Foge deles! Não te deixes iludir por simpatias e sorrisos. Não penses por um segundo que os homens não são todos iguais.
