Aos Domingos, depois do almoço, íamos até Sintra para passar a tarde com a tia Lucinda. Umas vezes íamos de carro, pela estrada velha que passava pela casa assombrada dos vasos de barro. Outras vezes, íamos de comboio e a mão da minha avó agarrava a minha com toda a força que lhe era possível.

Íamos até Sintra e a tarde era o chá e a lata das bolachas. A tarde era a papelaria da Dona Esménia e o café em frente e o campo da bola. A tarde era a impaciência do meu avô e do meu pai a quererem vir-se embora. - Ele não é teu avô, é teu padrinho. É teu avô e padrinho. - A minha mãe dizia.

Ao final do dia, os meus cinco anos impacientes iam até à cozinha. A noite já tinha caído. Entrava e deixava a porta do armário aberta e a porta da cozinha entreaberta. Juntas, elas eram o portão para a minha quinta imaginária. Desejava que alguém quisesse vir à cozinha. Então, eu explicava que aquela já não era a cozinha. Aquela era a minha quinta e eu tinha que ver se deixava ou não entrar. Deixava sempre.

Aquela cozinha, naqueles finais de tarde de Domingo, era a minha quinta, a minha casa, o meu canto, o meu refúgio. Vinte e oito anos depois, é para lá que tantas vezes vou em pensamento. Fecho a porta e decido quem deixo ou não entrar.